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quinta-feira, 15 de outubro de 2015

ASPECTOS PÓS-MODERNOS NA LITERATURA BRASILEIRA ATRAVÉS DA OBRA "LEITE DERRAMADO" DE CHICO BUARQUE

Resenha apresentada no 4° período do Curso de Licenciatura em Letras das Faculdades Integradas Campo-Grandenses (FIC) mantidas pela Fundação Educacional Unificada Campograndense (FEUC), na disciplina de Literatura Brasileira Contemporânea ministrada pelo Prof. Me. Erivelto da Silva Reis. 

Adriane Lucia de Oliveira 
Lybia S. de Oliveira



Francisco Buarque de Hollanda, músico, compositor, dramaturgo e escritor brasileiro, nascido em 19 de junho de 1944 na cidade do Rio de Janeiro, é considerado um artista completo. Sua obra literária, assim como a música, é elogiada e apreciada pela crítica brasileira, algumas delas, inclusive, foram premiadas e adaptadas ao cinema. Chico Buarque é o quarto dos sete filhos do historiador e sociólogo Sérgio Buarque de Hollanda e da pianista Maria Amélia Cesário Alvim. Morou e estudou na Itália durante alguns anos e tinha sua casa frequentada por grandes personalidades brasileiras. Publica suas primeiras crônicas aos 17 anos no jornal do colégio Santa Cruz, onde estudava. Em 1964 ingressa na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo de São Paulo (FAU), mas abandona o curso por conta do clima de repressão após o golpe militar. Em 1966 ocorre seu primeiro embate com a censura. Logo após a decretação do Ato Institucional n°5, em 13 de dezembro de 1968, é detido e levado ao Ministério do Exército para esclarecimentos sobre sua participação na “passeata dos cem mil” e sobre as cenas da peça Roda viva, que foram consideradas subversivas. Em janeiro de 1969 deixa o país para um autoexílio na Itália. Retorna em 1970 e, ao lado de seu pai, participa do Conselho do Centro Brasil Democrático (Cebrade), uma organização de intelectuais comprometidos contra a ditadura, e isso lhe valeu o rótulo de comunista. Em 1991 lança seu primeiro romance, Estorvo, pela Companhia das Letras, vendido para sete países e loureado com o Prêmio Jabuti de Literatura. Em 1995 é lançado o seu segundo romance, Benjamim, oito anos mais tarde publica seu terceiro romance, BUDAPESTE, que se torna Best-Seller e traduzido para mais de seis idiomas. Em 2009, publica pela Companhia das Letras o seu quarto romance, Leite derramado, cujo sucesso nas vendas e excelente aceitação da crítica resultaram no Prêmio Jabuti, como livro do ano em 2010, e já se encontra autorizada, pela Agência Nacional do Cinema (ANCINE), a sua adaptação aos cinemas.

Leite derramado é construído através de uma narração autodiegética, na qual, Eulálio Montenegro D’Assumpção, centenário e ao leito de um hospital, narra sua vida, pensamentos e histórias. Descendente de família europeia, que desembarcou no Brasil junto com a Coroa Portuguesa, nos revela um panorama histórico-social que perpassa os dois últimos séculos em apenas 195 páginas, divididas em 23 capítulos.

A narrativa inicia-se com o protagonista em um leito de hospital jurando casar-se com a enfermeira que lhe assiste. E é nesse leito, sob efeito de muitas dores e reações aos remédios – devido a uma fratura do fêmur, escaras e enfisema – bem como sua memória fraca, que Eulálio narra, entre memórias e delírios, de forma fragmentada, os acontecimentos de sua vida e de seus antepassados, dirigindo-se a diferentes personagens - enfermeira, filha, a mãe (já morta), outros pacientes e a quem quisesse ouvir.

Eulálio, ao que tudo indica, nasceu em junho de 1907, o enredo se dá, no entanto, em 2007, quando o personagem está completando cem anos de vida, mas a história faz menção aos tantos Eulálios de sua tradicional família, que outrora influente e abastada, passa por transformações morais e econômicas. Em ordem cronológica, tetravô Dom Eulálio – poderoso comerciante e conselheiro de Marques de Pombal; trisavô general; bisavô barão dos arcos; avô “figurão do Império, grão-maçom e abolicionista radical”; pai senador da República. Assim, nosso personagem protagonista segue forçando a memória para buscar sua identidade, corroída pelo tempo e pelas mudanças socioeconômicas do país, até chegar em seu tataraneto, traficante de drogas, também chamado Eulálio. É como uma espécie de eco que de tanto se repetir torna-se mais fraco e totalmente disperso no universo.

O pai de Eulálio, embora tivesse uma posição social invejável, vivia uma vida promíscua, era consumidor de cocaína e, supostamente, fora assassinado pelo marido de sua amante; a mãe, uma senhora conservadora, preconceituosa e tradicional. Ambos representavam os aspectos e costumes de uma época. Durante a narrativa é possível identificar diversos acontecimentos históricos e o comportamento da elite diante desse cenário. O narrador faz menção à rainha louca, Dom Pedro II, Marques de Pombal, abolicionismo, Belle Epóque, as duas Grandes Guerras, ditadura militar etc. Nota-se o contraste das gerações até nas mínimas descrições, como, por exemplo, quando se refere ao sofrimento de seus antepassados que suavam bastante embaixo de tanta roupa e seu pai que as mandava engomar na Europa, até a personagem Kim, namorada de seu tataraneto, que mostrava um piercing no umbigo e exibia uma tatuagem escrita “Jesus Cristo” no “rego da sua bela bunda”. Do conservadorismo à amoralidade comportamental. A obra corrobora assim com as transformações éticas sociais. Provoca o leitor a refletir mais de cem anos de história do país.

O enredo é direcionado em torno de sua grande paixão, Matilde, que o abandonou deixando-o sozinho com a filha, Maria Eulália, ainda bem pequena. Eulálio, homem orgulhoso, posto acima na estratificação social, casa-se com Matilde, uma mulher que embora lhe provocasse os mais fortes desejos, mantinha comportamentos contrastantes ao que se esperava de uma mulher de “classe”, tais aspectos o envergonhava, seu francês medíocre, a vontade de ficar na cozinha, o gosto por estilos musicais como samba e maxixe, o assobiar, eram comportamentos inadequados para uma mulher diante da sociedade da época. Mulher que sua mãe não aprovava, pois “[...] era a mais moreninha das congregadas marianas que cantaram na missa [...].” (p.20), perguntando-o ainda se a moça não tinha “cheiro de corpo”, uma vez que tinha a pele “quase castanha”. Intensifica a antipatia quando a moça lhe dá uma neta mulher, pois a tradição familiar consistia em filhos homens unigênitos.

O narrador carrega, desde o desaparecimento de Matilde, muitas dúvidas e envolve o leitor em um grande suspense. Durante a narrativa, despertam-se diversas possibilidades e versões sobre esse fato, algumas são contadas para a filha, mas desmentidas sempre após um novo boato que a menina, desde pequena, escutava na escola; outras, nos são sugeridas através do discurso. Morreu após o parto, em um acidente na Rio-Petrópolis, afogamento, tuberculose, suicídio, fugiu com seu amigo Francês, fugiu com o médico (amigo da família) etc. Permanece a dúvida até o final da obra, embora tivesse aparentemente se esclarecido através de uma carta do médico revelando a sua doença, mas Eulálio não lê. O leitor é conduzido a tirar suas próprias conclusões diante do mistério.

Com isso, nota-se a intertextualidade presente em referência a Dom Casmurro de Machado de Assis. Eulálio possui um ciúme doentio como o de Bentinho, ambos descrevem doses de dissimulação características de suas mulheres, ambos desconfiam do romance entre suas esposas e homens mais chegados, e o mistério da traição permanece além do fim da história. Capitu traiu Bentinho? Matilde traiu Eulálio?

O ciúme de Eulálio pode ser visto e interpretado como um grande reflexo do preconceito, machismo e imoralidade presentes em si mesmo. Era difícil para ele admitir Matilde como negra e, por isso, cultivava uma espécie de desejo similar aos dos senhores que mantinham escravas para saciar seus desejos sexuais. No trecho em que menciona Balbino, filho de um escravo e amigo de infância, afirma que ele tinha a “índole prestativa” e para tanto lhe pedia favores somente para agradá-lo. Nesse período, desejou se relacionar sexualmente com ele – “mesmo sem motivos”, segundo o próprio – mas subentende-se que as atitudes de submissão lhe davam gosto o suficiente para isso. Segundo o narrador, esse desejo só não fora concretizado porque conheceu Matilde. Logo em seguida, se justifica dizendo que não tem preconceito de cor e, no mesmo parágrafo, a descreve como a “mais moreninha das congregadas marianas”. A índole prestativa de Matilde, assim como a de Balbino, alimentava o desejo de Eulálio pela submissão de negros em posição de escravos, isso fica bem explícito quando ele a espremia contra a parede com toda a sua força, prendia seus punhos, até que ouvisse “eu vou, Eulálio”. Essa é uma das grandes críticas presente em Leite derramado, pois apesar de serem mascarados, é possível enxergar a disseminação de comportamentos e pensamentos preconceituosos principalmente contra a mulher negra, que ainda é vista como objeto de desejo, escrava sexual e “cor do pecado”.

O preconceito do personagem ainda pode ser destacado em vários trechos do romance. Quando seu bisneto começou a crescer e seus traços afros foram se tornando mais evidentes, Eulálio começou a se perturbar porque tinha “a sensação de conhecer sua cara de algum lugar”. Ao vasculhar a memória não lembrava de nenhum outro negro em seu convívio, “não tinha muita gente da raça em sua relação”, com exceção de Balbino e um ou outro criado. Ele não reconhecera os traços de Matilde porque não queria enxergar a sua esposa como negra, não admitia. E para justificar o “nariz de batata” e cabelos crespos do bisneto, preferiu supor que havia puxado a mãe, que ele não conhecia, alegando que o neto não havia feito uma boa escolha: “[...] eu não podia esperar um neto comunista que se juntasse com uma moça de pedigree.” (p.149). A palavra “pedigree” remete a uma raça superior, de porte, com linhagem, portanto, apesar de dizer que não tinha preconceitos, seu discurso prova a sua opinião quanto ao negro ser inferior. Em uma ocasião, Eulálio fica horrorizado quando escuta uma “menininha muito branquinha”, durante momentos de intimidade, chamar seu bisneto de negão, e no dia seguinte é possível notar em seu discurso uma necessidade de defender e “limpar” a honra da família, ao dizer a ela: “o negão aí é descendente de dom Eulálio Penalva d’Assumpção, conselheiro de Marques de Pombal.” (p.150).

Além do racial destacam-se outros tipos de preconceitos arraigados e disseminados na atualidade, como, por exemplo, associar a imagem de um padre a um sujeito homossexual, no trecho em que diz “padreco meio bicha”; e, ao apresentar o cenário de tantos nordestinos que vieram trabalhar nas capitais, inclusive como porteiros na zona sul do Rio de Janeiro, ao se referir a um desses empregados como “cabeça-chata” e pensar que o mesmo “talvez nunca tivesse visto um senhor de colete e paletó tweed.” (p.151).

Eulálio representa uma classe de conservadores radicais decadentes que cristalizaram valores ultrapassados e, por que não, desumanos, e que insistem em ecoar seus discursos preconceituosos e ofensivos.

O ciúme, ou melhor, a possessividade de Eulálio, evolui durante toda a narrativa. As roupas de Matilde, seus modos, suas idas à praia, as visitas que recebia enquanto ele trabalhava, tudo incomodava ao ponto de fantasiar cenas de adultério, resultando na proibição de determinadas roupas e passeios. Quando Matilde se tornou mãe, e logo em seguida deixou de amamentar, o narrador vira vítima de pensamentos imorais e em nenhum momento se preocupa e pergunta o que está acontecendo com ela, mas prefere se calar, observar e julgar conforme sua própria moral – ou falta dela. A sua desconfiança se tornou ainda mais concreta quando a ama de leite lhe diz que “Se o leite estanca assim de supetão [...] é porque a mãe perdeu um ente querido, ou padeceu grande decepção amorosa.” (p.134).

Quando Matilde estava a chorar baixinho, Eulálio, que estava há semanas sem se deitar com ela, imaginou ouvir a mesma voz de quando praticavam sexo, talvez, a mesma voz frágil e submissa que tanto o excitava. E, por isso, fantasiou que Matilde estava com outro homem. Porém, ao chegar mais perto, pôde ouvir seus soluços e viu respingos de leite na pia, Matilde estava tirando seu leite e derramando na pia. Mesmo após esse episódio, Eulálio não se preocupou em saber o que estava acontecendo com a sua esposa, e quando resolveu “pedir explicações” ela já havia desaparecido. Ainda pensava em adultério e chegou a imaginar que ela o traía com seu amigo, o francês, Dubosc. “E pode ser que [...] se sentisse indigna da filha, não ia lhe dar um peito assim todo lambuzado.” (p.159). Por falta de evidências, manteve-se o mistério de seu desaparecimento repentino.

O “leite” foi muito bem trabalhado nesse romance de Chico Buarque, deixando-nos várias interpretações relevantes dentro desse contexto narrativo. Em um certo momento, Eulálio lembrou de sua mãe ao piano – era o único momento em que ela se emocionava. Assim, ele faz a seguinte comparação: “você sempre tem essa nobreza de represar os sentimentos, que certamente lhe doem, como deve doer leite empedrado.” (p.130). O leite, portanto, pode ser interpretado como representante fiel de vida, sentimentos, felicidade – alimento da alma. A mãe de Eulálio era amargurada e triste. Em contraste, temos Matilde, sempre alegre, animada e leve em abundância, “O leite de Matilde era exuberante, agora mesmo ela encheu duas mamadeiras antes de dar o peito à criança.” (p. 85).

Eulálio desconfiou da moral de Matilde mesmo depois de anos do seu desaparecimento. Em diversos momentos a procurou em algum leito com outro homem, agora, Eulálio em um leito de hospital desejava que ela voltasse e, preferia uma mulher adúltera, mas com saúde e alegre. Inclusive fantasiava como Matilde, com sua volta, calaria a voz de seus juízes. O personagem se arrepende do homem mesquinho, machista e egoísta que fora e fantasia o perdão e a aceitação de uma suposta traição. Na verdade, ele queria que ela fosse feliz e que esse homem, se houvesse de fato, fizesse o que ele nunca fez “que se dirigisse a ela com palavras que nunca usei, que tivesse o cuidado de tocar a pele dela onde jamais tocava.” (p.165). Mas já era tarde, e valendo-se da expressão popular, não adiantava “chorar o leite derramado”.

Ainda pode ser interpretado como uma conotação sexual, o desejo de Eulálio por Matilde são constantemente mencionados na narrativa. Desde que a conheceu já demonstra isso e fazia questão de relembrar, mesmo que em um leito de hospital. “E urgia compreender melhor o desejo que me descontrolara, eu nunca havia sentido algo semelhante.” (p.32). Enquanto namoravam, embora “sem contatos de pele, e sem avanços de mãos ou de pernas” ele pensava, paralelamente em como ia disfarçar para seus pais e criados aquele impulso sexual, “o lago quente em minhas coxas [...] minhas calças e cuecas esporradas [...].” (p.46). E mesmo depois que Matilde desaparece, seu desejo por ela continua vivo e presente:
[...] sonhando com ela melei estes lençóis [...] vai restar visível uma mancha úmida no colchão, que tratarei de virar como faço toda manhã, deixando para cima o lado das manchas secas. Terei a sensação de que o colchão pesa mais um pouco a cada dia, e imaginarei que na palha dentro dele, se impregna a pasta dos meus sonhos e atos solitários.” (p.69).
Chico Buarque lançou duas versões para o Leite derramado, uma com capa branca e outra com capa laranja. Entende-se que a versão de capa laranja representa Matilde, essa era sua cor favorita – calorosa, afogueada, fora dos padrões convencionais, exuberante – que despertava o ciúme doentio de Eulálio, a dúvida sobre a traição. “Nem parei pra pensar de onde vinha a minha raiva repentina, só senti que era alaranjada a raiva cega que tive da alegria dela.” (p.12). Enquanto a versão da capa branca representa Eulálio e seu arrependimento – o leite derramado.

O romance contem características típicas da literatura pós-moderna, através da ilinearidade, o narrador-protagonista planeja um futuro através do presente retomando o seu passado. Por diversas vezes, joga com o presente e o passado, intrigando e confundindo o leitor. Seus delírios, conversas em pensamentos, reclamações de tudo a sua volta, repetições de fatos, dificuldade em apresentar os acontecimentos de maneira cronológica configura a metaficção, pois traz realidade, provoca o leitor a entender dessa forma.

A literatura pós-moderna trata desse sujeito fragmentado, com pensamentos e identidades contraditórias e heterogêneas. Eulálio é um homem de cem anos, que está em um leito de hospital, fazendo uso de medicamentos fortíssimos para dor. Portanto, a história, por ele lembrada e contada, carece de linearidade e coerência, tal como seria o seu fluxo de pensamentos. E como que em uma justificativa, ele mesmo diz 
A memória é deveras um pandemônio [...] Não pode é alguém de fora se intrometer [...] como a filha que pretende dispor da minha memória na ordem dela, cronológica, alfabética, ou por assunto. (p.41).
Chico Buarque apresenta, em o Leite derramado, diálogos com outras obras. Trata-se de uma ficção cheia de intertextualidades e baseada na metalinguagem. Quando Eulálio apresenta o cenário histórico desde seu tetravô, quando encontramos diálogos com os textos machadianos e quando percebemos detalhes de obras historiográficas, percebemos que se trata de uma narrativa metaficcional. 

De maneira intimista, o narrador revela seus preconceitos e opiniões sobre as pessoas, fatos e coisas a seu redor. Como em “Aquela que veio me ver, ninguém acredita, é minha filha. Ficou torta assim e destrambelhada por causa do filho.” (p.14). Ora, dificilmente alguém diria isso em qualquer contexto, ou para a própria pessoa de quem se fala. Demonstra, com isso, o que é tão intensificado na literatura contemporânea, o fato de relatar que o sujeito pós-moderno possui esse mistério íntimo, de não dizer o que se pensa, ou dizer de maneira sutil, mascarando a intimidade. Stuart Hall configura esse processo de construção do sujeito pós-moderno relacionando-o a sociedade. Atualmente, não há uma sociedade centralizada, vivemos em uma era diversificada em segmentos sociais, e a identidade do indivíduo contemporâneo reflete exatamente isso, as multifaces presentes em cada indivíduo. Assumem-se identidades diferentes de acordo com cada contexto.

Através de Eulálio é possível perceber, como pano de fundo, uma tendência da elite de uma época, que se comportava de maneira extremamente conservadora, preconceituosa e com a moral, apesar de frágil, construída e conservada pela aparência.

Eulálio proveniente de uma sociedade tradicional, regressista, na qual os indivíduos tendiam a ser centralizados, todos seguiam as mesmas regras culturais, éticas e morais, se encontra ao final de sua vida em uma sociedade completamente diferente. Hall diz 
[...] à medida em que os sistemas de significação e representação cultural se multiplicam, somos confrontados por uma multiplicidade desconcertante e cambiante de identidades possíveis, com cada uma das quais poderíamos nos identificar – amo menos temporariamente. (HALL, 2006, p.13)
Há uma busca pela construção de um sujeito, o próprio Eulálio tenta se reconstruir, diante daquilo que lhe restou. Essa necessidade de mostrar quem é, quem fora, a história de seus antepassados e a autoafirmação constitui nessa incessante busca, Eulálio quer resgatar ou mesmo reconstruir um sujeito que, no momento, encontra-se debilitado, decadente, agonizando de dores físicas e psíquicas. Ao relembrar e contar a sua história, Eulálio espera que alguém lhe ouça. O narrador pretende convencer que Matilde a abandonou, apesar de seus argumentos insustentáveis. O próprio nome do protagonista significa “um bom orador”, um contador de histórias; enquanto Matilde, traz a conotação de mulher má. 

A presença da ideia do politicamente incorreto fica escondida atrás do fato de se tratar de uma pessoa idosa. Nota-se que o autor usa disso, para não chocar quando relata o desejo de Eulálio por relações homossexuais com Balbino. Um senhor, doente, relembrando sua vida, soa como graça e não impacto em uma sociedade por vezes preconceituosa. Denotando ainda normalidade em sentir desejos semelhantes. É como se, por ser idoso, Eulálio tivesse a liberdade para reclamar do que quisesse. Provoca, pois é natural que hoje ninguém se importe com as reclamações, ou observações, ou ainda, com a história de vida dos idosos. Ressalta-se também, as repetições de fatos, além de trazer a ficção para mais próximo da realidade, pois é normal um idoso repetir o mesmo assunto, ou a mesma história, vemos também a crítica à impaciência que a juventude de hoje tem para lidar com isso. Por várias vezes, Eulálio se desculpa e justifica o fato de repetir várias vezes a mesma história.

Se outrora, a família de Eulálio possuía fama e riqueza, se seu sobrenome podia ser usado para adquirir vantagens, se bastasse andar por onde seu pai andava, agora já não adiantava nada, é o leite derramado na vida Eulálio. 

O Leite derramado, em 2007, retrata cem anos de Eulálio, trata da história do Brasil. As transformações sociais, econômicas, políticas refletem efetivamente na vida de uma família, e, por consequência, na vida de um indivíduo. A Europa não é mais a mesma, o Brasil não é mais o mesmo. A sociedade não é a mesma de cem anos atrás, refletindo diretamente na formação da família atual. Culminando em construções identitárias individuais. O indivíduo não é mais o mesmo. O livro provoca reflexão de um eu interior, de um eu posterior. Eulálio não é mais o mesmo e não adianta mais “chorar o leite derramado”.


REFERÊNCIAS

BUARQUE, Chico. Leite derramado. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Tradução de Tomaz Tadeu da Silva e Guaracira Lopes Louro. 11 ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2006.

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